Na Casa da Cultura de Caneças, CDU, PS, MOC e BE debateram as suas propostas para aquela freguesia. O problema de excesso de tráfego na vila, o abandono do património histórico ou a delegação de competências na junta foram alguns dos temas em discussão.
pub
Em vésperas de eleições autárquicas, os debates “Cara ou Coroa” estendem-se aos candidatos à presidência das Juntas de Freguesia do concelho. A primeira das sete iniciativas decorreu na passada Segunda-feira, na Casa da Cultura de Caneças e juntou no mesmo painel Armindo Fernandes, pela CDU; Manuel Cunha, pelo MOC; e João Azeitona, pelo PS. Fátima Santos, do PSD, não compareceu, enquanto a morte de um parente de Luísa Trindade, do BE, obrigou excepcionalmente à sua substituição pelo nº 2, Roberto Tavares. O debate foi moderado por Henrique Ribeiro, director dos jornais Nova Odivelas, Diário de Odivelas e Nova Região, e Paiva Setúbal, director dos órgãos de informação Odivelas TV e Odivelas.com .
Nas rondas de perguntas, dos moderadores e de público, as intervenções polarizaram-se sobretudo em Armindo Fernandes e João Azeitona, que inclusive se desafiaram mutuamente em algumas questões. Manuel Cunha também demonstrou um amplo conhecimento do território, enquanto Roberto Tavares não foi tão concreto nas respostas.
Descongestionar a vila
Sobre a adiada construção das variantes norte e sul, que ajudariam a desbloquear o tráfego rodoviário na vila, tanto o MOC como o BE consideraram que é de facto necessário resolver a questão das acessibilidades. Já o candidato da CDU e também presidente da junta foi mais mordaz, referindo que os traçados foram esquecidos pela câmara e que neste momento é preciso considerar outras alternativas como Montemor – alto de Camarões ou a ambicionada chegada do metro à Ramada, que já permitiria desanuaviar o trânsito (projecto aliás subscrito por todas as forças políticas presentes). Tanto Armindo Fernandes como João Azeitona defenderam também uma possível ligação da freguesia à CREL.
Aliada a esta questão, e em resposta a uma das perguntas colocadas pela audiência, todos concordaram que urgia retirar o terminal, o parque de viaturas e as oficinas da Rodoviária de Lisboa do centro de Caneças. A maioria dos intervenientes defende que esse objectivo passa antes de mais pela construção das variantes, enquanto Roberto Tavares alega que «É preciso conhecer o Plano Municipal de Acessibilidades» para encontrar respostas. O candidato do PS propõe uma solução a curto prazo, ou seja, a criação do “Buscas”, um mini-bus semelhante ao “Voltas” (a funcionar em Odivelas) que transporte a população pelas ruas mais estreitas da vila.
Segurança dos peões e distância ao centro do concelho
A questão da mobilidade condicionada de quem anda a pé pela freguesia foi outra das questões levantadas pelo público, com Armindo Fernandes a lamentar não ter conseguido incluir o problema da falta de segurança dos peões (associada por exemplo a zonas de circulação onde não existem passeios) no Orçamento Participativo (OP) de 2008. Acerca deste, e numa altura em que os fóruns de discussão voltaram a arrancar por todo o município, recordou que nenhuma das obras aprovadas foi ainda iniciada, como é o caso da ilha ecológica prevista para o centro de Caneças.
Sobre a possibilidade da distância geográfica ao coração do concelho prejudicar aquela freguesia, o candidato da CDU sublinhou mesmo que tanto no OP do ano transacto como na descentralização de competências se verifica um «Interesse político/partidário declarado» que tem sido lesivo para Odivelas, Ramada e Caneças. Roberto Tavares adianta que talvez essa distância «Até seja melhor» porque a zona «Não é tão apelativa para os construtores», enquanto Manuel Cunha e João Azeitona advogam a defesa das especificidades daquela que é a freguesia «Mais saloia». do município. O candidato do PS afirma que deve ser promovida «Uma Caneças empreendedora», que abranja a gastronomia e fomente o turismo cultural, salientando que «Quem não tem capacidade de negócios é que coloca a freguesia num extremo».
Património histórico, gestão do ginásio da Secundária e Centro Comunitário e Paroquial
A falta de aproveitamento do património histórico foi também uma das questões mais acesas. O cabeça de lista do MOC à freguesia lembra a Anta de Pedras Grandes, o Aqueduto das Àguas Livres ou a capela da Quinta das Águas Férreas que se encontram ao abandono, quando a câmara tem um departamento para tratar desta área. «Toda esta História não deve morrer porque em caso contrário não deixamos nada para as gerações futuras», diz Manuel Cunha. João Azeitona refere que a Anta «Está a ser acompanhada pelo Instituto Português do Património Arquitectónico» e coloca o acento tónico no domínio cultural. Com alguma tradição, «A Festa da Bela Cruz desapareceu. As histórias das lavadeiras, aguadeiros ou viveiristas onde é que estão publicadas? Também há muito a dizer sobre as fontes, herança que vem dos tempos em que Odivelas pertencia a Loures, altura em que os bairros clandestinos ali criados inquinaram as águas». Armindo Fernandes centra a questão exactamente nas fontes e recorda que após uma proposta da junta estas foram classificadas como património de interesse municipal. Mas desde então nada foi feito e a do Castelo de Vide, por exemplo, «Está irrecuperável». Acrescenta que a Quinta das Águas Férreas também foi votada ao abandono, apenas com a parte urbana «A ser cuidada». Mais uma vez alerta para a responsabilidade camarária no assunto.
A gestão do ginásio da Escola Secundária de Caneças, fora do horário lectivo, pela câmara, também mereceu críticas, já que privilegia as associações com modalidades federadas, sejam elas locais ou não. Manuel Cunha e Roberto Tavares defendem que a gestão deveria passar para a junta. João Azeitona anui e acrescenta que é necessário conhecer melhor as colectividades e ajudá-las a ganhar um novo fôlego. Isto porque, segundo avança, alguns clubes fecharam (caso do da Fonte Santa) ou ameaçam fazê-lo em breve (como o da Ponte da Bica). Armindo Fernandes não critica a gestão camarária nos moldes em que decorre mas lamenta que sejam outras colectividades, «E não as locais que lutaram por ele», a beneficiar daquele espaço. «Não me interessa quem gere, desde que esse processo sirva os interesses da nossa população», afirma, recordando que o polidesportivo de Caneças continua em lista de espera ao mesmo tempo que o da Pontinha, no Casal do Rato, está prestes a ser inaugurado (refere que ambos foram prometidos pela Presidente Susana Amador).
Acerca do já apresentado projecto para o Centro Comunitário e Paroquial de Caneças (que envolve uma igreja, capelas mortuárias, salas para catequese, infantário e lar), todos os candidatos se mostraram receptivos, até porque, como adianta Roberto Tavares, «A freguesia é muito pobre em infra-estruturas destinadas a crianças e idosos». O candidato da CDU foi mais cauteloso: também é a favor mas recorda que «A junta se debate com dificuldades financeiras em várias áreas».
Alegações finais dos candidatos
Nas alegações finais, Manuel Cunha sublinha o «Poder da proximidade» e a vontade de contactar com as populações e saber exactamente do que precisam. O MOC sugere ainda, entre algumas ideias, uma farmácia ambulatória que vá a casa dos cidadãos mais envelhecidos ou a criação de um gabinete de apoio aos habitantes, com assistente social. O socialista João Azeitona defende 21 compromissos pela freguesia, que passam nomeadamente por uma linha telefónica dirigida à terceira idade ou a promoção das tradições de Caneças. «Não levarei queixas à Assembleia Municipal», refere, acrescentando que a sua intervenção se pautará, caso seja eleito, pela melhor gestão possível dos recursos que forem atribuídos à junta.
Roberto Tavares, pelo BE, refere que abrir a Quinta da Fonte Santa à população podia ser uma mais-valia e que «Gostava de ver os orçamentos das juntas e da câmara discutidos de forma mais abrangente».
Já Armindo Fernandes, há 12 anos na presidência da autarquia local, frisa que «A junta e a CDU precisam dos valores que lhes são devidos a tempo e horas». Lembra que ainda aguardam, por exemplo, 50 mil dos 100 mil euros atribuídos pela câmara para a construção do edifício da junta, ou que existe uma outra dívida, esta de 20 mil euros, afecta à repavimentação de algumas ruas, e que remonta a 2005.
De referir que este primeiro debate de um conjunto de sete – antecedido por dois outros ciclos, um entre cabeças de lista à câmara e outro dedicado a temas específicos, a que se seguem, a partir do fim de Setembro, duas iniciativas que reunem todos os candidatos à presidência de câmara – contou com muita adesão. Além das dezenas de habitantes interessados, que colocaram diversas perguntas aos intervenientes, também estiveram no local algumas personalidades do concelho incluindo presidentes de autarquias locais, e cabeças de lista às juntas e à câmara de vários partidos. Texto e fotografias: Lina Manso
pub
|